Revista - Edição 01 - Outubro/2009

Entrevista com Nivaldo Ornelas

Por: Aloízio Jordão

O que pensa esse grande músico sobre o momento da música erudita & instrumental no Brasil. Um relato de quem vive para a música e da música. O que esse mestre tem a dizer sobre tantos aspectos importantes do cenário da música instrumental brasileira.

NO - Eu acho que a música erudita no Rio vive um ótimo momento, eu sou ouvinte atuante, vou ver as coisas... Há dias fui ver o Festival Ravel, com a Sinfônica Brasileira, com uma pianista russa, de alto nível, e a Petrobrás Sinfônica também, São duas das melhores orquestras do Brasil, que têm tradição e atualmente estão sendo apoiadas por grandes empresas, que tem essa sensibilidade. Então, eles tem ótimos regentes, tanto Isaac quanto Roberto Minczuk, e o que acontece? Cresce o nível, e melhora o nível. O público vem...

Tem música de câmara também. Eu vou ver muita coisa, vou até na Rádio MEC, sou ouvinte mesmo...

AJ - O que você acha que está faltando para as pessoas acessarem mais?

NO - Olha, aonde eu vou tem público, não tem teatro vazio não... Se bem que eu tô indo em coisas assim: fui ver o Nelson Freire, e esse pessoal é top de linha. Na música de câmara, música ligeira , grupos pequenos para teatros menores, o que falta é divulgação dos meios de comunicação porque se o pessoal souber que tem, eles vão. Esse público no Rio de Janeiro sempre existiu, e não diminuiu não, mas se você não sabe quem está tocando naquela esquina você não vai... Eu acho que falta só isso, se bem que isso não é pouco.

Eu mesmo tenho um sobrinho, o Marcelo Palhares, que tem um grupo chamado "Brasil Barroco", que resgata a música do período do barroco brasileiro, Padre José Maurício, e eles se apresentam em igrejas. Têm público. Gratuito, não importa, mas têm público, só que eles têm uma tremenda dificuldade de colocar o trabalho deles na mídia, até o tijolinho do "O Globo" é difícil, porque na verdade o Rio tem muita atração, e o pessoal da grande mídia tem prioridade. E aqui no Brasil se tem uma péssima mania, que quando é grupo estrangeiro é página inteira, grupo de rock então... E não é pago não, os caras gostam mesmo, então isso é uma cultura que tem que mudar ou tentar mudar, pelo menos. De qualquer forma tem o seguinte: no meu balanço de música de qualidade aqui no Rio de Janeiro, eu acho um bom momento , essa música sinfônica.

Falando da música popular, do Jazz, do choro, da música popular instrumental brasileira, aí é um pouco diferente. Eu acho que esse fenômeno da Lapa, que abrange mais o choro e a MPB de raiz, o samba, esse tipo de música, está ali no lugar certo, onde foi criada, e está bombando mesmo. Mas isso é um segmento, tem outros, tem o pessoal que faz a música instrumental brasileira, mas não é choro. O cara que é do Rio Grande do Sul e mora aqui no Rio não faz choro...

AJ - O Nivaldo Ornelas não faz choro...

NO - Eu não faço choro, apesar da minha família, meu pai fazer choro, ser um homem das cordas... Mas eu não sou do choro, apesar de tocar alguns.

E aí está complicado - houve um tempo que havia no Rio o Jazzmania, o Mistura Fina, a Livraria Book-maker, People, havia um círculo de Jazz, de "Música". A gente usa esse termo "Jazz" americano, que quer dizer música criada, improvisada, enfim, liberdade de criação artística, não é só música, é toda a arte - a pintura, a dança, a literatura, todos fazem "Jazz". Um bailarino quando improvisa em cima do palco é o mais puro "Jazz". Então eu uso esse termo na música não por estar fazendo música americana, que posso fazer também, não tenho nada contra, mas é sobre isso que estou falando.

AJ - Mas a nossa música abre essa possibilidade...

NO - O Brasil vai de "A" à "Z". Eu sou suspeito prá falar. Tirando os Estados Unidos, que tem uma cultura forte, negra, indígena e branca fortíssima, e eles cuidam disso muito bem,tem um tradição enorme que vai da Europa prá lá e eles colocam isso no mundo, são bons vendedores. O Brasil é a maior música popular do mundo. Eu já rodei muito por aí e não existe um país como o nosso. Existe Cuba, que tem uma coisa bacana, mas como o Brasil não, que é muito rico, e a música instrumental brasileira só não se deu conta que isso é material de exportação. Eu já viajei muito com Egberto, com Milton, e eles ficam assim, é diferente, é genuíno, é puro, é real. No Brasil, falando do Rio, já houve um público melhor. Por quê? Porque era um público universitário e esse público precisa ser resgatado, ele está com sede de ver e ouvir . Eu, Wagner Tiso, Toninho Horta, Hermeto, Egberto cansamos de fazer circuitos universitários. Meio-dia, hora do almoço, eles deixavam de almoçar para ir ouvir um som, e ficava lotado, e depois tinha debates, ferrado mesmo, o couro comia porque o pessoal era informadaço.

AJ - Esse pessoal é ouvinte até hoje...

NO - Esse pessoal é ouvinte, mas precisa reciclar isso, hoje são outras pessoas, tem a Internet, naquela época não havia...

AJ - Mas a referência é outra - se não houver uma base para referência não adianta...

NO - Pois é, esse povo está um pouco órfão, tem que levar nosso som até eles porque a Internet democratizou de tal forma e tem o grupo de rock da Austrália - e daí? Aqui ao lado tem coisa muito boa. Então tem que retornar os projetos de músicas nas escolas. Eu também já fiz, com a Délia Fischer , a gente tocava em escola primária, parecia que os meninos estavam vendo um ET. Perguntávamos: vocês nunca viram isso? E eles diziam: não tio... E o grande lance é refazer esse público, começando pelas Universidades porque é um público informado, que lê, que pensa, que fala, discute. Diretórios acadêmicos, cadê esse povo ? Quantos shows a gente fez, com os caras angariando fundos para formaturas, quantos...

Então no panorama da música instrumental no Rio de Janeiro a questão é essa, precisamos retomar. Aqui sempre foi o lançador.

AJ - E ela se estende, porque é para o Rio e para o Brasil inteiro...

NO - Lógico. As coisas têm que começar. Esses projetos da Sala Funarte, Catacumba, Parque Garota de Ipanema...

AJ - Eu estava lá...

NO - É. E desapareceu, ficou para trás, precisamos retomar isso. Precisam existir projetos para essa área...

AJ - Espaço.

NO - Espaço também, mas projetos também, que financiem pelo menos a infra-estrutura. O músico não vai ficar rico, mas se houver infra-estrutura ele vai até de graça mostrar seu trabalho, levar seu disco, e no próximo onde ele for tocar o povo já conhece.

Esse projeto que eu fiz na Caixa, que é um grande projeto aqui do Rio, é isso. O povo que sai do trabalho e vai ali do lado, no Largo da Carioca, se o trânsito está ruim ele entra sem nem saber o que é, mas chega lá e diz: "- Opa, não sabia que existia." E no próximo ele já vai. E não é só música, é teatro, literatura, enfim...

AJ - Nós estamos fazendo um trabalho novo e gostaríamos que você falasse dele.

NO - Já que estamos falando sobre música e música popular, o meu grande desafio tem sido nos últimos anos fazer um trabalho focado no seguinte: unir as duas tendências, os dois segmentos. De que forma? Estou fazendo um trabalho de música erudita mas com sabor de música popular, ou música popular com sabor erudito. Na verdade eu não sei, essa peça que eu fiz, que já toquei com a Orquestra Petrobras Sinfônica, com regência do Wagner Tiso, eu fui o solista com a peça que se chama "Nova Suíça – Sábado a tarde”, que fala da minha infância, do lugar onde nasci, com a Orquestra, mas tem ritmos, tem improvisação, coisa que não acontece no panorama da música erudita. Acho que foi um grande desafio, e estou trabalhando em outras peças para trabalhar pelo Brasil afora...

AJ - E estamos já publicando isso, em primeira mão, na nossa primeira edição da "Alô Música - Clássica & Instrumental". Quero agradecer imensamente essa gentileza em conceder essa entrevista em nosso primeiro número.

NO - Acho que essa revista vai preencher um espaço fantástico, porque existe público para ela, existem artistas e artistas, milhares, que precisam desse veículo para mostrar seus trabalhos, falar, discutir, debater, é uma retomada. Vida longa à Revista Alô Musica - Clássica & Instrumental , porque ela vai repercutir , e no que depender de nós, artistas, contem conosco.

 

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