A ópera no Brasil, pelo menos importada dos EUA, segue em trajetória fulgurante. Que o diga a MovieMobz, parceira nacional do Metropolitan Opera de Nova York no programa Met Live in HD, após o estrondoso sucesso da primeira temporada transmitida no país.
Maior e mais tradicional teatro lírico norteamericano, e certamente o mais abastado do mundo, o Metropolitan Opera, carinhosamente chamado de MET, passa por uma extraordinária revolução de conceitos desde a entrada de Peter Gelb como seu diretor administrativo em 2006. De último defensor da ópera à moda antiga, o MET transformou-se no principal centro difusor de inovações tecnológicas (e midiáticas) da cena lírica internacional.
Dentre as aquisições desta nova era, a mais bem sucedida (e copiada) é a transmissão ao vivo de suas montagens, em high-definition (HD), para centenas de salas de cinema ao redor do mundo. O sucesso de público é de tal ordem que, desde a temporada inicial, 2006-2007, o número de produções transmitidas subiu de seis para oito em 2007-2008, chegando a onze na última temporada, 2008-2009.
Desde janeiro, as transmissões, restritas à América do Norte, Europa, Austrália e Japão, chegaram ao Brasil através da MovieMobz, levando a salas de cinema devidamente equipadas, nas principais capitais e em algumas cidades do interior do país, produções excepcionais das óperas La Rondine e Madama Butterfly, de Giacomo Puccini, Orfeo ed Euridice, de Gluck, Lucia di Lammermoor, de Gaetano Donizetti, La Sonnambula, de Bellini, e La Cenerentola, de Rossini.
O público melômano brasileiro, ávido pelo que se faz de melhor em ópera no mundo, e amargando um jejum cada vez mais prolongado nos palcos nacionais, respondeu de forma entusiástica, o que motivou a realização do primeiro Festival Metropolitan de Ópera. Antes do início das transmissões da nova temporada, em novembro, teremos a partir de 9 de outubro, em sete dias consecutivos, seis títulos das temporadas passadas, inéditos no Brasil, e a aclamada Butterfly pucciniana deste ano.
De Rossini, assistiremos à deliciosa produção de Bartlett Sher para O Barbeiro de Sevilha, com interpretações do maior tenor di grazia da atualidade (ou mesmo da história!), o peruano Juan Diego Flórez, da mezzo-soprano norteamericana, dona de uma verve cômica (além de uma voz...) sensacional, Joyce DiDonato, e dos ótimos Peter Mattei (como o impagável Figaro) e John Relyea, regidos por Maurizio Benini.
Flórez repete a dose em A Filha do Regimento, de Donizetti, na nova montagem de Laurent Pelly, em co-produção com a Royal Opera House, regida por Marco Armiliato. A ópera ganhou uma leitura cheia de energia e vivacidade, especialmente com a performance eletrizante da inigualável soprano francesa Natalie Dessay, imbatível em coloratura e em timing cômico. Ária mais famosa da partitura por seus nove dós de peito para o tenor, Ah mes amis que jour de fête contou com uma vocalização simplesmente inacreditável de Flórez. Em Londres, a ovação que o tenor leggero recebeu foi tal, e a aparente facilidade com que cantou foi tamanha que, façanha das façanhas, Juan Diego bisou a ária. No elenco ainda, estrelas do porte da mezzo-soprano Felicity Palmer, do basso buffo Alessandro Corbelli e da atriz Marian Seldes.
Completando a tríade do bel canto italiano, de Vincenzo Bellini ouviremos a ópera I Puritani (Os Puritanos), com a diva assoluta Anna Netrebko. Regida por Patrick Summers em uma das montagens tradicionais remanescentes da casa, a soprano russa tem na frágil e enlouquecida Elvira um veículo ideal para a sua magistral arte da interpretação, tanto cênica quanto vocal. Completam o cast a bela voz lírica do tenor americano Eric Cutler e a presença marcante do baixo John Relyea.
Ainda no repertório italiano, chegamos a uma das óperas mais encenadas do teatro lírico, La Bohème, de Puccini, que ganha em sua apaixonada e trágica atmosfera verista interpretações perfeitas da soprano romena Angela Gheorghiu e do tenor mexicano Ramón Vargas. Nicola Luisotti, atual diretor artístico de outra importante Ópera dos EUA, a de San Francisco, rege a tradicionalíssima montagem do MET, idealizada por Franco Zeffirelli no início dos anos 80, que conta com a participação de grandes artistas como o barítono francês Ludovic Tézier e a soprano espanhola Ainhoa Arteta, além do veterano Paul Plishka.
Sucesso maior da temporada do MET no Brasil, a Madama Butterfly encenada por Anthony Minghella ganha reprise. Utilizando elementos do teatro japonês, a montagem ressalta os símbolos principais da tragédia de Puccini, com atuação memorável de Patricia Racette como a gueixa abandonada, uma das criações mais ricas e intensas da história da ópera. O tenor Marcello Giordani canta um sólido Pinkerton, o barítono Dwayne Croft personifica um afetivo Sharpless e a mezzo-soprano Maria Zifchak surpreende com um belo retrato de Suzuki. Patrick Summers rege a produção, realizada em memória de seu falecido diretor. Um epitáfio mais do que digno, que demonstra o ápice artístico de seu criador.
O alto romantismo russo de Tchaikovsky ganha as telas com Eugene Onegin, ópera baseado no drama de Pushkin. Um dos maiores regentes da atualidade, e autoridade maior no repertório, o russo Valery Gergiev conduz a performance apaixonada, e imbatível, de dois intérpretes maiores, a diva norteamericana, soprano Renée Fleming, e o barítono russo Dmitri Hvorostovsky. A encenação, minimalista e inspirada, é de Robert Carsen. O tenor Ramón Vargas e o baixo Sergei Aleksashkin tem sensíveis participações.
A ópera do século XXI é representada por uma obra-prima da música contemporânea, Doctor Actomic, de John Adams. Retratando a criação da bomba atômica pelo cientista J.Robert Oppenheimer, a première no MET ganha uma produção ambiciosa de Penny Woolcock e marca a estreia no teatro de Alan Gilbert, novo diretor musical da Filarmônica de Nova York. A figura central do cientista é retratada em atuação antológica do barítono Gerald Finley, que criou o papel em San Francisco em 2005, com perfeito contraponto da mezzo-soprano Sasha Cooke. A música caleidoscópica é usada com senso dramático impecável em Doctor Actomic que, como em óperas anteriores de John Adams, retrata momentos cruciais da história mundial atual.
A temporada 2009-2010 traz nove óperas aos cinemas, que serão exibidas no Brasil duas a três semanas depois da transmissão ao vivo nos EUA. Gelb convidou diretores cênicos de vanguarda para continuar a sua política de ruptura com o tradicional conservadorismo do teatro. A nova montagem de Luc Bondy para a Tosca de Puccini abre a maratona de récitas. Fato inédito no MET, a produção foi vaiada em sua noite de estreia, ao passo que a performance consagrou definitivamente a soprano finlandesa Karita Mattila como uma grande intérprete dos papéis dramáticos italianos. Outras novas produções incluem Os Contos de Hoffman, de Offenbach, com Anna Netrebko e o tenor maltês Joseph Calleja, a Armida de Rossini, o Hamlet na versão francesa de Ambroise Thomas, e a Carmen, de Bizet, com a grande revelação da cena lírica atual, a mezzo-soprano Elina Garanca.
As produções tradicionais do repertório do MET para Aida de Verdi, O Cavaleiro da Rosa (Richard Strauss) e a Turandot de Puccini (na aclamada encenação de Zeffirelli) ganham vida nas interpretações de Violeta Urmana, Renée Fleming, Susan Graham e Maria Guleghina. A ópera Simon Boccanegra, de Verdi, marca o bem-sucedido retorno do legendário Plácido Domingo ao papel-título, composto para a voz de barítono. O diretor artístico do teatro novaiorquino, maestro James Levine, rege quatro das nove óperas.
O sucesso do MET via cinema abriu as portas para outros grandes teatros líricos usarem a mesma tecnologia na transmissão de suas produções, como o La Scala de Milão, o La Fenice de Veneza, o Teatro Comunale de Bologna, o Teatro Regio de Parma, o Maggio Musicale de Florença, o Teatro Real de Madrid, a Royal Opera House de Londres e as principais montagens operísticas do Festival de Salzburgo e do Festival de Glyndebourne. Que venham logo!
![]() |
Copyright © 2001-2009 Alô Música
Todos os direitos reservados
publicado por HTDocs