Opinião :: Homenagem

Ismael Silva, 40 anos depois...

( Março de 1978 /Março de 2008 )
Por: Antonio Bragad

O sambista Mílton de Oliveira Ismael Silva, conhecido como Ismael Silva, nasceu em 14 de Setembro de 1905, em Jurujuba, Niterói, antiga capital do Estado do Rio de Janeiro. Filho do cozinheiro Benjamim da Silva e da lavadeira Emília Corrêa Chaves, era o mais novo dos cinco irmãos. Aos três anos de idade a família mudou-se, para o Estácio, bairro da Zona Norte da cidade do Rio de Janeiro, onde Ismael, apesar de ter morado em outros bairros, fixou sua presença. Aos 15 anos compôs seu primeiro samba: ‘Já desisti”. Anos mais tarde, passou a freqüentar pontos de encontro de alguns grandes sambistas da época, como Mano Edgar, Baiaco, Nilton Bastos, Brancura, Bide dentre outros. Ficou conhecido nessas rodas, e em 1925 a melodia de seu samba, ‘Me faz carinhos’ foi gravada pelo pianista Cebola. Dois anos mais tarde, doente e internado em hospital da Gamboa, foi procurado por Bide, que lhe contou sobre uma proposta de Francisco Alves para comprar sua música.: Esse "comércio" de sambas era prática comum nos anos 20 e 30. Além de Ismael, Noel Rosa, Cartola, Nelson Cavaquinho e outros venderam sambas. O disco foi lançado pela Odeon, trazendo no selo o nome de Francisco Alves como intérprete e autor. Logo depois o samba ‘Amor de malandro’ era lançado nas mesmas condições, e o êxito alcançado pelos dois discos levou o intérprete a propor-lhe exclusividade na gravação de toda a produção do sambista. Ismael, precisando de dinheiro, aceitou a proposta com a condição de que fosse também incluso o nome de seu parceiro Nilton Bastos. Assim, vários sambas como ‘Não há’, ‘Nem é bom falar’ e o grande famoso ‘Se você jurar’, lançado em 1931 pela dupla Francisco Alves / Mário Reis, tornaram-se conhecidos pelo publico. Ismael participou do coro na maioria dessas gravações.
Em 1928, com os principais sambistas do Estácio, reuniu integrantes para formarem a primeiro escola de samba, do Rio de Janeiro a Deixa Falar.. Há relatos de que seria de sua autoria a expressão "Escola de Samba", por comparação à Escola Normal de onde saíram os "professores", no caso, de samba. Fundada a 12 de agosto de 1928, desfilou pela primeira vez no ano seguinte, cantando na Praça Onze os sambas do pessoal do Estácio.. A Deixa falar desfilou nos anos de 1929, 1930 e 1931. Seu final ocorreu em função da mudança de Ismael para o Centro do Rio de Janeiro, após as mortes de Nílton Bastos e Edgar Marcelino. Nilton Bastos morreu de tuberculose e Mano Edgar foi assassinado numa briga de jogo.
Na cidade, ainda em 1931, começou a compor com Noel Rosa, novo parceiro que conheceu através de Francisco Alves. O primeiro samba da dupla, ‘Para me livrar do mal’, foi gravado no ano seguinte por Francisco Alves. Comporiam juntos diversos sucessos, entre os quais ‘Adeus’ (com Francisco Alves como co-autor), dedicado a Nilton Bastos e lançado em 1932 pela dupla Jonjoca/Castro Barbosa; ‘Uma jura que eu fiz’, gravado por Mário Reis, em 1932; ‘Ando cismado’, gravado por Francisco Alves, em 1933; e ‘A razão dá-se a quem tem’, grande êxito de Francisco Alves e Mário Reis em 1933. Em dupla com Noel Rosa, o sambista estreou como intérprete em 1932, gravando, na Odeon, o samba ‘Escola de Malandro’. No ano seguinte lançaram, no mesmo disco, os sambas ‘Quem não dança’ e ‘Seu Jacinto’ (ambos de Noel Rosa). Suas composições começaram a ser gravadas por vários interpretes, entre os quais João Petra de Barros, Silvio Caldas e Carmen Miranda. Em 1937, morreu seu parceiro Noel Rosa.
Ismael foi condenado à cinco anos de cadeia - cumprindo apenas dois anos, por bom comportamento - após atirar em Edu Motorneiro, um freqüentador da boemia carioca. Depois deste episódio, ele se tornou recluso e só retornou à cena carioca na década de cinqüenta. Sabe-se que durante esse período ele atravessara enormes dificuldades financeiras. No final dessa década, teve o seu samba ‘Antonico’ gravado por Alcides Gerardi. Samba de versos tristes e andamento lento, um dos mais belos de sua obra. O ano de 1954 fica marcado como o ano de revalorização de antigos nomes da música, manipulado pelo então cantor e radialista Almirante, que realizou em São Paulo o Primeiro Festival da Velha Guarda.
Em 1955, no Rio de Janeiro, estréia o show O Samba Nasce no Coração, onde cantou ao lado de grandes artistas de décadas anteriores. Logo depois gravou seus dois primeiros LPs como intérprete de suas músicas: ‘O samba na voz do sambista’, lançado pela Sinter, e ‘Ismael canta Ismael’, pela Mocambo, ambos em 1956.
Em 1964, depois de outro período de esquecimento, reaparece no Restaurante Zicartola, na Rua da Carioca. No ano seguinte atuou no Teatro Opinião, com Araci de Almeida, no musical ‘O samba pede passagem’, de onde aconteceu um LP lançado pela Philips. Homenageado na Bienal do Samba, em São Paulo, e em programas de televisão e Rádio, voltou ao palco em 1973 no espetáculo ‘Se você jurar’, escrito por Ricardo Cravo Albin e estreado no Teatro Paiol, a convite da Prefeitura de Curitiba. Em junho do mesmo ano gravou na RCA o LP ‘Se você jurar’, com grandes sucessos do passado e seis sambas inéditos: ‘Contrastes’, ‘Alegria’, ‘Aliás’, ‘Receio’, ‘Entrada franca’ e ‘Afina a viola’.
Ismael morreu pobre em 1978 de um ataque cardíaco em decorrência das complicações surgidas após uma cirurgia para tratar de uma úlcera varicosa que possuía na perna.
Suas composições mais conhecidas são: ‘Me faz carinhos’, ‘Se você jurar’, ‘Antonico’, ‘Para me livrar do mal’, ‘Novo amor’, ‘Ao romper da aurora’, ‘Tristezas não pagam dívidas’, ‘Me diga o teu nome’, ‘Adeus’, ‘Amor de malandro’, ‘Coisa louca’, ‘Com a vida que pediste a Deus’, ‘Contrastes’, ‘Eu gosto, mas não é muito’, ‘Ironia’, ‘Liberdade’, ‘Não tem tradução’, ‘Não vá atrás de ninguém’, ‘Nem é bom falar’, ‘Nome feio’, ‘Novo amor’, ‘O que será de mim?’, ‘Peçam bis’, ‘Sofrer é da vida’, ‘Uma jura que fiz’ dentre outras.

Antonio Braga

Matéria também publicada no Jornal das Gravadoras

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