Nós, músicos e produtores fonográficos, advogados, jornalistas,
comunicadores e emissoras públicas de todo o Brasil, reunidos em Curitiba,
nos dias 11 a 13 de abril de 2008, sob convocação da ABMI (Associação
Brasileira de Música Independente), AMAR (Associação dos
Músicos, Arranjadores e Regentes), UBC (União Brasileira de Compositores)
e Governo do Paraná, por meio da Secretaria de Estado da Cultura e da
Rádio e Televisão Educativa do Paraná, refletimos sobre
a atual situação da música independente brasileira e afirmamos
a manutenção do termo Produção Independente como
fator de diferenciação em relação à produção
massificada.
Entendemos que o cenário musical brasileiro atravessa um momento esplendoroso
e pujante da criação e produção musicais. No entanto,
sofremos há tempos com a prática de mercado que domina o setor.
Preocupa-nos a falta de políticas públicas de fortalecimento do
setor musical, relegado a uma ditadura de mercado, que define uma estética
própria, de qualidade e gosto que julgamos duvidosos, baseada na obtenção
do maior lucro pelo menor custo de produção, imposta de forma
homogênea para todo o Brasil. Trata-se de um modelo nocivo aos interesses
nacionais, que reduz a difusão da produção musical genuinamente
brasileira, ignorando inclusive nossas riquezas regionais.
Entre tantos dados exaustivamente analisados, destacamos um exemplo desse descaso
com a cultura nacional: durante o ano de 2007, as quatro gravadoras multinacionais
que operam no Brasil produziram apenas 130 títulos. Destes, 75 são
licenciamentos de música estrangeira e apenas 55 de produção
nacional. No mesmo período, 63 gravadoras nacionais independentes colocaram
no mercado 784 títulos novos.
De modo inversamente proporcional, a produção de música
independente nacional ocupou apenas 9,82% do espaço de veiculação
musical, contra 87,37% do espaço ocupado pela produção
da indústria multinacional nas rádios comerciais de todo o País.
Trata-se da imposição de um modelo de dominação
cultural e monopolização do mercado da música que leva
ao empobrecimento da cultura brasileira. Por meio da redução da
pluralidade e diversidade de estilos e gêneros registra-se um rebaixamento
da música, assim como de toda produção cultural nacional,
a simples produtos descartáveis, exatamente num país reconhecido
mundialmente pela exuberância de seu tesouro musical.
Para democratizar o acesso à música profissional de qualidade,
garantindo o desenvolvimento da cultura nacional em base à cidadania,
à ética e ao respeito aos valores mais nobres de uma sociedade,
convocamos as autoridades brasileiras e a sociedade de um modo geral a refletir
sobre e a apoiar os seguintes encaminhamentos:
AOS GOVERNANTES:
1. Repudiar e combater como crime a prática do “jabá”
(veiculação musical paga aos meios de comunicação)
como um ato lesivo à cultura nacional.
2. Desenvolver um mecanismo de aquisição pública da produção
independente de música brasileira, para uso nas bibliotecas, acervos
e escolas públicas como forma de desenvolver e estimular a educação
musical do povo brasileiro.
3. Pelo mesmo motivo, implantar e desenvolver a educação musical
nas escolas de todo o país, como disciplina do currículo.
4. Criar uma política de Estado em defesa dos acervos das editoras musicais
brasileiras, através do IPHAN, para impedir a absorção
dos catálogos nacionais por grupos estrangeiros.
5. Assumir a defesa intransigente da lei dos direitos autorais.
6. Exigir que os órgãos públicos só possam veicular
anúncio publicitário, campanha pública ou outra forma de
veiculação que possibilite o repasse de recursos públicos
em emissoras que estejam em dia com suas obrigações legais em
relação aos direitos autorais.
7. Condicionar a manutenção e renovação das concessões
públicas ao fiel cumprimento da legislação, particularmente
no que diz respeito ao recolhimento de direitos autorais.
8. Criar mecanismos que garantam a diversidade e regionalidade na veiculação
de toda a produção musical brasileira nos meios de comunicação
em geral, de acordo com os artigos 221 e 222 da Constituição Brasileira.
AOS ARTISTAS E À SOCIEDADE BRASILEIRA:
1. Criar um banco de dados sonoros, em suporte digital, sistematizando um repertório
nacional de música independente, destinado à sua difusão
especialmente para as emissoras das redes públicas de comunicação.
2. Apoiar a PEC, em tramitação no Congresso Nacional, que cria
a imunidade tributária para a música brasileira, como forma de
reconhecimento do seu papel educativo e primordial para a identidade cultural
brasileira, assim como já é feito com a produção
editorial.
3. Apoiar a criação, fortalecimento e expansão em sinal
aberto dos sistemas público e estatal de comunicação, como
forma de garantir a democracia informativa no país, e cobrar que tais
emissoras se comprometam a ser agentes da difusão da cultura nacional,
respeitando e valorizando a cultura regional.
4. Manifestar apoio ao ECAD, condenando toda campanha iniciada como forma de
enfraquecer esta organização, conquista dos artistas brasileiros,
e ao mesmo tempo contribuir para que a instituição amplie e aperfeiçoe
seus mecanismos de transparência e eficiência.
Para dar continuidade aos temas tratados neste encontro, os presentes decidiram manter esta forma de organização e, para isso, formar um grupo de trabalho, composto por representantes das entidades organizadoras deste encontro e outras entidades convidadas.
Curitiba, 13 de abril de 2008
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