Entrevista

Victor Biglione

jun/2004 - Por: Aloizio Jordão

Victor Biglione é, sem sombra de dúvida, um dos maiores guitarristas do cenário da música instrumental deste país. Dono de uma técnica maravilhosa e de uma sensibilidade como poucos, Victor Biglione é, acima de tudo, um músico que sempre acredita naquilo que faz, sem se deixar levar ou ser influenciado por nenhuma onda mercantilista que possa descaracterizar seu trabalho; um idealista, engajado na luta pela sobrevivência da música instrumental e que sempre lutou pelo seu devido espaço.

O Alô Musica teve o prazer de conhecer um pouco mais desse talento e dessa figura fantástica que é Victor Biglione.

Aloizio Jordão - Victor, é um prazer estar aqui com você... Vamos começar nossa uma pergunta que sempre faço aos nossos entrevistados: "- como a música entrou na tua vida?"

Victor Biglione - Eu venho de uma família de músicos - meu primo, falecido recentemente, também nascido na Argentina e criado no Brasil como eu, era baterista, o Claudio Slon, tocou com todo mundo - gravou com Tom Jobim vários discos, tocou com Sergio Mendes, com Donato, uma carreira brilhante, Valter Vanderley, Marcos Valle, então isso já estava na família, uma família de origem judaica, embora eu não tenha tido formação, porque meu pai era comunista na Argentina, por isso viemos para o Brasil. Então a partir dos oito anos de idade eu já recebia informações musicais... Tudo rolava lá em casa, desde música clássica, jazz, o melhor da música brasileira, tanto é que eu conheço música brasileira desde garoto. Eu acompanhei todos esses movimentos - desde "Dois na bossa" que eu escuto disco... Eu acompanhei o lançamento do "Dois na bossa" em 65, Elis e Jair, que eu já escutava lá em casa... Não tinha muito essa coisa de televisão, então o negócio era ler e escutar música - era muito mais saudável para o jovem daquela época do que essa invasão e logotomia que a televisão causa nas pessoas, que é extremamente maléfico... Eu tive pelo menos essa sorte...

Então foi assim que a música entrou na minha vida...

Aloizio Jordão - E a opção pelo instrumento?

Victor Biglione - Olha, todo mundo na época tinha esse negócio... Foi muito gerado pela contra-cultura, pelo rock: guitarra, guitarra, guitarra... Eu comecei com violão e passei para a guitarra - aquela paixão pela guitarra, realmente uma época romântica do "Rock", no verdadeiro sentido da palavra, com "R" maiúsculo, rock muito bom, de muita qualidade - até hoje eu gosto principalmente do movimento inglês, de resgate do blues, todos aqueles ingleses que resgataram o que os americanos mesmo não davam valor. Então isso tudo me levou para as seis cordas. Logicamente logo depois do momento "blues e rock" eu parti para a harmonia, para o jazz, para a música brasileira, bossa nova, e é com o que eu lido hoje em dia, são os elementos que eu lido - eu nunca me agarrei a alguma tendência do mercado - agora eu vou fazer isso, "ah! eu sou sambista, eu sou bossa-novista, eu sou roqueiro - eu sou um cara que estudou música, que conhece música, que gosta da boa música e que sabe lidar com a boa música, tanto fuzzionando quanto tocando isoladamente..

Aloizio Jordão - Eu estou vendo que você tem um pôster do Jimi Rendrix...

Victor Biglione - Exatamente - e um o do Contraine aqui...

Aloizio Jordão - Realmente - rs... O Rendrix é... Bom, sem comentários...

Bom, você começa a estudar a "música" propriamente com quantos anos? Você fez escola de música?

Victor Biglione - Estudei primeiro com professores particulares, depois fiz a escola do Zimbo Trio, que foi fundamental para mim em São Paulo, o C.L.A.M. - Centro Livre de Aprendizado Musical, com uma metodologia muito boa, na época que não tinha vídeo-aula, não tinha isso tudo... E pelo fato de não ter tanta facilidade fazia com que os músicos procurassem um caminho mais pessoal, que tivessem mais personalidade tocando, e isso era muito importante. Hoje em dia muita gente toca, mas toca sem dizer muito, você espreme sai um que tem algo a dizer...

Aloizio Jordão - E como é que você entra no circuito da música?

Victor Biglione - A partir dos 18 anos - com 19 anos eu toquei com o Alfredo Dias Gomes - toquei com a irmã do Alfredo, a Denise, e o Alfredinho me viu tocar e me apresentou o Marcio Montarroyos e o Marcio gostou da minha visão da música... Eu tocava, era uma que no Brasil você tinha ou um Sergio Dias ou um Hélio Delmiro, ou você tinha um grande roqueiro ou tinha um grande jazzista, não tinha essa minha visão, e o Marcio se encantou com isso... Com 20 eu já estava tocando com a Zezé Mota, um grande emprego, já estava independente financeiramente - toquei com a Zezé Mota, Elza Soares, Marina, Sergio Mendes e aí nunca mais parei... Comecei a gravar, fiz um show que marcou muito, um show de música instrumental brasileira na Sala Funarte, com o Mazinho no baixo, eu e Ricardo Silveira nas guitarras, Marquinhos Silva nos teclados, Marcio Montarroyos no trompete e o Alfredo Dias Gomes...

Aloizio Jordão - Isso em que ano?

Victor Biglione - 79...

Aloizio Jordão - Sala Sidney Muller?

Victor Biglione - Sim, ali na Araújo Porto Alegre - e depois dali não parei mais... Muitos convites, projetos...

Aloizio Jordão - E como você vê o momento da música instrumental no Brasil? Na verdade estamos passando por um hiato muito grande na música instrumental, e eu queria saber tua opinião...

Victor Biglione - A música instrumental no Brasil só existe porque os músicos continuam tocando... Em termos de mercado e mídia ela não existe... Existe por uma insistência nossa, por um amor e por uma raça que, embora desunidos, os músicos que fazem instrumental têm... Ela existe só por causa disso, não há nada que mova...

Aloizio Jordão - Nos anos 80 teve um movimento de música instrumental no Brasil muito forte - programas dirigidos à música instrumental, ao jazz, enfim, isso tocava muito nas rádios, inclusive fazia parte da programação normal das rádios...

Victor Biglione - E estava na televisão também... Acontecia que era independente do gênero, porque agora pode-se dizer que tem movimento do resgate do choro, do samba, jovens universitários tocando, mas é uma coisa que eu acho também muito radical - essa geração adora esse resgate e nós sempre lidamos com isso, mas na minha opinião deveria se quebrar um pouco essa coisa do estilo e se pensasse em uma coisa maior em termos de música, cada um escolhe o que quer, mas tem-se que pensar em termos gerais da música...

Aloizio Jordão - Eu vejo que naquela época se tinha "espaços" - a Catacumba, o Garota de Ipanema, havia vários lugares, o Circo Voador, que era um espaço democrático... Agora eu te pergunto: o jovem que você acabou de falar, que tem uma referência do choro, que é uma coisa que está muito lá atrás...

Victor Biglione - É, nesse movimento dos anos 70 e 80 tinha gente fazendo um choro revolucionário, era um choro com uma tendência nova, como Egberto fez, Vagner Tiso fez, Marcos Ariel, Hermeto, eu diria uma preocupação muito nacionalista de manter a coisa ainda da casa, como se a gente fosse perder a referência do País... Não vai acontecer isso, o que é nosso, é nosso...

Aloizio Jordão - É como você falar do jazz com brasilidade...

Victor Biglione - Exatamente - quem toca jazz toca jazz e os americanos tocam bossa nova bem pra caramba - nós tocamos jazz e eles tocam choro...

Aloizio Jordão - E a que você atribui esse rompimento das Rádios pararem de incluir nas suas programações música instrumental? Você acha que o público não gosta de música instrumental?

Victor Biglione - O público adora música instrumental, imagina... Eu peguei a época que as pessoas te paravam nas ruas, como um artista normal como qualquer um que canta... Eu acho que as gravadoras pararam com isso em busca talvez de um retorno rapidíssimo, imediato, de muito dinheiro... Um nível de audiência para ter mais pessoas anunciando, uma busca desesperada disso... Mal calculada porque o resultado disso é desastroso... Você vê o resultado do mundo hoje em dia com essa busca desenfreada por dinheiro de alguns grupos, dessa má distribuição de renda, dessa não preocupação cultural, mas sim com o entretenimento, está causando uma infelicidade, um nível de violência, de busca de drogas no mau sentido impressionante... Porque o que da a felicidade para o ser humano, uma das maiores prazeres que o ser humano pode encontrar, um deles, sem dúvidas, é o cultural... Não tem nada - não tem um carro zero, uma roupa, nada - isso te soluciona por dez minutos, na hora que você compra... Já o estudo e o conhecimento deixa a pessoa apta à digerir algo muito sofisticado, o prazer é inenarrável, uma coisa que não tem preço...

Aloizio Jordão - Quantifica isso como essa busca acelerada para criar produto não quer dizer que esse produto tenha qualidade, muito pelo contrário...

Victor Biglione - Você está criando um produto que exige cada vez menos uma elevação do nível cultural, cada vez mais nivelando por baixo... "Não, manda mais simples que o pessoal não tem capacidade de entender..." , e as coisas que exigem mais capacidade sofrem cada vez mais para serem absorvidas...

Aloizio Jordão - E nós podemos observar isso pelas sinfônicas - quando você coloca um Projeto Aquarius na rua, por exemplo, não tem lugar para tanta gente... O povo gosta... Dizem que o povo não gosta da música erudita - isso é uma bobagem... O povo gosta do que é bom também...

Victor Biglione - Ninguém resiste ao encantamento de um instrumento bem tocado... Eu coloco muito a culpa também no exagero - o Brasil é um país rico, tem muita gente com música excelente, eu acho que foi um exagero de bola que deram para a televisão... O próprio DVD não me pega tanto - eu vejo um DVD parece que eu comi sete "big macs"... Sério... Agora o CD é outro papo.. Essa coisa de imagem e movimento o tempo todo, mesmo com música boa, eu fico cansado..

Aloizio Jordão - Nós agora temos um Ministro da Cultura que certamente já passou por todas as dificuldades que um músico e um artista passaria... Você não acha que pode se instaurar pelo menos algumas regras em relação às programações das Rádios? A gente percebe uma invasão muito grande, esse boom todo do mercado fonográfico em detrimento a essa vinda de material estrangeiro... Quer dizer, as Rádios tocam o que querem, não têm uma dedicação... A gente tem o jabá...

Victor Biglione - Pois é, aí complica - eu nunca vi, dizem...

Aloizio Jordão - Jabá é que nem enterro de anão, ninguém nunca viu mas sabe que existe... Então, infelizmente, está instaurado isso, é uma realidade... Eu tenho conversado com algumas pessoas que estão à margem do mercado fonográfico que são obrigados a acompanhar os artistas, os cantores para poder movimentar o seu trabalho independente. Fica muito complicado porque a mídia não apóia e na verdade ele fica com um trabalho fantasma...

Victor Biglione - Jordão, mas também não adianta colocar programa de música instrumental no dia tal em tal horário - tem que ser digerida na programação normal das Rádios...

Aloizio Jordão - Exatamente...

Victor Biglione - Essa seria uma lei interessante, colocar a música instrumental na programação normal das Rádios..

Aloizio Jordão - É claro, nós estamos dentro de casa, estamos no nosso País, isso aqui é Brasil... Eu acho que qualquer país que queira preservar sua memória cultural, de alguma forma tem que resgatar o que está lá atrás, porque as pessoas já não têm mais a referência dos bons trabalhos que tinham lá atrás, e essa preocupação com o lançamento de novos talentos... Hoje se você chegar nos Estados Unidos e parar qualquer garoto de 20 anos e perguntar sobre Louis Armstrong ele sabe quem é...

Victor Biglione - Ah! Os americanos fazem isso… Eles têm o artista que vende dez milhões de cópias mas eles sabem a importância para a bandeira americana que o Milles Davis tem...

Aloizio Jordão - Exatamente...

Victor Biglione - Eles não são bobos - eles têm o que vende para faturar, mas o que gera um prestígio cultural, a faze de ouro do jazz e do cinema americano, eles preservam muito bem e com muito cuidado, coisa que o Brasil não faz... Quer vender, tudo bem, mas preserva a nossa bandeira...

Aloizio Jordão - Exatamente... Acaba que alguma dessas pessoas, por alguma fatalidade vai embora, esse trabalho é pulverizado e não existe o resgate disso... Você vê - é inadmissível você ver um Altamiro Carrilho, que é um mestre...

Victor Biglione - Com certeza, é um mestre total - fizemos um show de um projeto que me lembrou os velhos tempos, um show ali no Parque dos Patins, inaugurando o espaço Victor Assis Brasil, que o Banco de Boston bancou, quando o Altamiro se apresentou, olha, tinham umas três mil pessoas, foi uma loucura - isso não existe, não tem uma artista de música comercial que vai conseguir o que ele conseguiu... É um momento que parece que você está levitando... É diferente do comercial...

Aloizio Jordão - Você falou do Victor Assis Brasil, que é um exemplo... O que se toca do Victor Assis Brasil nas Rádios? Absolutamente nada, e é tão importante no cenário da música brasileira...

Victor Biglione - Totalmente - é um cara respeitadíssimo lá fora, tem grandes clássicos... Inclusive a mistura, ele tem coisas geniais - falam que ele é jazz, mas ele tem um baião chamado "Cruzeiro", que é uma das misturas mais gostosas do fraseado jazzístico com a divisão e a coisa brasileira... "Arroio", nossa, ele tem coisas maravilhosas e mostra a categoria do brasileiro...

Aloizio Jordão - Então a gente vê essas pessoas saindo do Brasil para fazer sucesso fora do seu país de origem, que é uma lástima, fica uma coisa muito complicada...

O Alô Música tem recebido muito material de gente nova, está havendo uma movimentação de jovens para a música instrumental, novas bandas, e a gente percebe que existe uma grita muito grande para uma explosão dessa música, que está há muito tempo quietinha, no cantinho... Então você acha que com a promoção de novas casas, festivais de música instrumental, circuito universitário - aliás, você já fez circuito universitário, eu lembro de ter visto você com Marcos Ariel na PUC - então o que você acha, de movimentos como circuito universitário, por exemplo?

Victor Biglione - Maravilhoso - é fundamental que essa geração de vinte anos receba a informação do instrumental também para que quando a gente chegar lá tenha gente interessada, como já teve, e não foi mantido esse interesse também porque houve o sumiço das Rádios...

Aloizio Jordão - E você acha que existe desunião no meio dos instrumentistas?

Victor Biglione - Total - é o que o Brasil tem de melhor - a música brasileira é melhor que o cinema - me desculpem, mas é melhor, mas é de uma desunião impressionante - como é que grupos com menos talento que o nosso conseguem se unir e consegue muito mais resultado, ao nível nacional e internacional, que nós músicos? O cinema, que na minha opinião, com todo respeito, não encosta na Música Brasileira (que é com "M" e "B" maiúsculos), e eles conseguiram um apoio da Petrobrás definitivo, tanto aqui como lá fora, eles estão chegando nos principais festivais de cinema de igual para igual, etc... E os músicos não foram capazes de se unir deixando seus egos de lado... Você acha que no cinema ninguém fala mal um do outro? Fala sim, mas na hora de fazer, está todo mundo junto... Lógico que tem competição, tem rixa e tem inveja como tem na música, só que o músico é burro e não consegue se unir e ir lá falar com o Gil, juntar trinta caras com nome grande e ir falar com uma grande firma, um Banco de Boston, sei lá... Depois esquece quem toca mais ou quem toca menos, se é bom ou se é ruim...

Aloizio Jordão - Então você acha que existe a desarticulação em detrimento da vaidade de cada músico?

Victor Biglione - O ego, a competição - lógico, todo mundo gosta de competir - eu acho que eu sou melhor que o fulano, toco melhor que o outro, meu disco é melhor - agora, eu acho que isso é uma coisa muito pessoal e da opinião de cada ouvinte, fãs e apreciadores... Lógico que eu não vou tirar a competição, ela, inclusive, ajuda a progredir, mas na hora do grupo, do segmento, conseguir as coisas tem que haver uma união...

Aloizio Jordão - E o Sindicato dos Músicos?

Victor Biglione - Ah, esquece... Não existe...

Aloizio Jordão - Mas você acha importante a articulação e a união dos músicos através de uma representação?

Victor Biglione - Eu acho importante é a reunião dos músicos por si - não interessa se tem uma sigla ou uma Ordem dos Músicos ou um Sindicato...

Agora, a Associação dos Cineastas Brasileiros fez um tremendo de um Prêmio, foi badalado na televisão, etc - então porque o Sindicato dos Músicos não estabelece um Prêmio, uma mostra, uma festa anual? Mil coisas que poderiam ser feitas e os músicos não são unidos - são turminhas que se protegem achando que isso vai dar resultado... Não vai dar, esse negócio de arrumar turminha é péssimo - pode resultar a curto prazo, mas a longo prazo isso é péssimo, tem que estar todo mundo se comunicando, tentando fazer coisas...

Vamos fazer uma comparação - o instrumental brasileiro está sobrevivendo há anos com focos, como na guerrilha de Che Guevara - vamos atacar em focos para desestabilizar o inimigo... Aí tem um foco aqui, outro ali, e isso não está mais funcionando - está na hora de um ataque como o "Dia D", vamos invadir a Normandia...

Aloizio Jordão - Mas você não acha que essa hora já está indo? Vou te dar um exemplo de Niterói - eles são bem mais unidos, e o que o Artur Maia está fazendo é uma prova real que se consegue, a partir daí, aglomerar, unir, porque eu acho que eles têm um laço muito mais estreito... Eu acho que esse momento do Artur vai fazer com que os outros pensem... E nós poderíamos fazer muito bem isso aqui - essa história do Rio de Janeiro ser a Capital Cultural do Brasil está muito a desejar em relação à música instrumental. Então os músicos que vão representar o Brasil vão lá tocar...

Victor Biglione - Olha, eu vou te dar um exemplo e não vou citar nomes - eu vinha bem com um músico amigo e tal, e quando saiu meu primeiro disco, que foi um sucesso absoluto, estrondoso, o Vagner Tiso fez a minha contra-capa, nós somos amicíssimos até hoje e estamos até lançando um disco agora - ele se uniu comigo cada vez mais e o tal amigo já arrumou logo uma confusão comigo, porque - "ah! o cara tocava comigo e fez um disco e está fazendo sucesso" - que besteira isso, é um exemplo de um grande músico que deu um exemplo de desunião... E é uma coisa que me deixa triste, é uma amizade, é um cara importante, então são de pequenos problemas assim, ou outros que eu tinha na época do instrumental dos anos 80 e quando a coisa decaiu, correram para outros segmentos, abandonaram o barco covardemente para se dirigir para outros segmentos dizendo: "não, eu sempre fiz tal coisa, nunca me envolvi com isso"... Quando o instrumental sofreu críticas, se tivesse tido uma união para resistir...

Aloizio Jordão - Não se vestiu a camisa...

Victor Biglione - Exatamente - e de pequenos fatos desses é que se forma nossa história...

Aloizio Jordão - Mas vamos para o lado bom da coisa - o Victor Biglione já tocou com muita gente...

Victor Biglione - Muita gente - eu até me assusto...

Aloizio Jordão - Eu tive a felicidade de ouvir esse primoroso CD que você fez com Andy Summers - eu vejo não só o impresso da brasilidade do músico, embora você seja argentino...

Victor Biglione - Rs... Adoram me chamar de argentino - eu sempre viajei, mas eu seria incapaz... Olha que eu já fiz muitos festivais, e festivais de prestígio pelo mundo afora e sempre com a bandeira brasileira - sempre! Com muita honra. Eu peguei um roqueiro e fiz ele tocar "Um abraço no Bonfá", do João Gilberto. Quando acabou a gravação e que ele viu que tinha conseguido tocar e a beleza que tinha ficado ele quase chorou na minha frente...

Aloizio Jordão - Eu quando mostrei o teu disco para um amigo, ele não sabia quem era e perguntou: "- quem é, Jonh Mc Laughlin?" - eu deixei ele, não falei, e quando terminou eu disse: "Victor Biglione". E ele disse: "- Eu não sabia que o Victor tocava isso tudo" rs...

Victor Biglione - É, o público não sabe o que você está fazendo...

Aloizio Jordão - Exatamente - fica complicado... Hoje, infelizmente, principalmente o instrumentista está sendo pouco identificado... Você pergunta quem é o fulano, o beltrano, se for alguém dos anos 80, de vinte e poucos anos atrás, dificilmente vai saber, a não ser as pessoas que fizeram parte do movimento...

Victor Biglione - Vou te dizer uma coisa: mesmo com a retirada das rádios, eu mantive a minha carreira ali - se alguém fala o nome Victor Biglione, pode não saber o que faz, mas alguma coisa sabe do nome... É difícil aquele que nunca ouviu falar...

Aloizio Jordão - Victor, quantos anos de carreira e quantos álbuns?

Victor Biglione - São 26 anos de carreira e vamos os álbuns: são 2 com "A Cor do Som" - 82 o primeiro, substituindo o Armandinho, depois "As quatro faces do amor", porque aí entrou a coisa comercial, entrou o Lincoln Olivetti e eu falei: "o Lincoln é uma coisa, 'A Cor do Som" é outra, vai descaracterizar o conjunto; depois meu LP de 1986, "Victor Biglione"; "Baleia Azul"; "Quebra Pedra"; "Biblioteca"; eu com Marcos Ariel "Duo 1"; eu, Zé Renato e Litto Nebbia, "Ponto de Encontro"; a trilha sonora "Trilhas"; "Assim Nascem os Anjos"; "Maquete Brasil"; o "Ao Vivo em Montreux"; "Cinema Acústico"; um com a Cássia Eller; eu com Vagner Tiso; eu e Andy Summers; eu com Marcos Valle; sei lá... Sendo que inéditos tem eu o meu novo com Andy Summers, só música brasileira e o com Vagner Tiso, um momento marcante na minha carreira, ter parceria com esse monstro da música brasileira, que sai pela Albatroz, distribuído pela Trama - o lançamento será no dia 04 de julho, na calçada da "Toca do Vinícius", na Vinícius de Moraes - vão colocar um piano de calda na rua, para paralisar Ipanema... Fora isso, uma parceria num futuro disco com a Itamara Korax, na minha opinião, uma das maiores cantoras do Brasil, é um absurdo o que ela canta, e um disco já quase pronto de jazz, eu tocando em trio, "Jazz in Bossa Trio", com Sérgio Barroso, que foi do "Rio 65 Trio" e o André Trombeta...

Aloizio Jordão - E como é tocar no Festival de Montreux?

Victor Biglione - Uma emoção muito grande - é como deve ser para um jogador de futebol jogar numa copa do mundo... Você toca vestindo a camisa, é diferente... Representando o teu País... Uma aeromoça em um vôo interno, já dentro da Suíça, perguntou: "- De onde vocês são"? E eu respondi: "Do Brasil" - e ela disse: "Brasil? Você não tem cara de brasileiro".. E eu disse: "Você está muito enganada - o fato de eu ter essa cara não quer dizer nada - a América do Sul é um Continente riquíssimo, graças a Deus eu tenho a sorte de ter essa mistura étnica". Impressionante, isso nos torna, numa boa, superiores ao resto do mundo...

Aloizio Jordão - Quantas vezes você fez Montreux?

Victor Biglione - Duas vezes...

Aloizio Jordão - E Montreau?

Victor Biglione - Montreau é considerado dos mais importantes Festivais eu fiz três...

Fiz o "New York Guitar Festival" com o Andy Summers, um dos festivais mais importantes da guitarra do mundo... Fiz o Festival de Otawa no Canadá, o Blue Note em Nova Iorque...

Aloizio Jordão - Você fez Blue Note?

Victor Biglione - Fiz, tem ali o pôster sendo assistido pelo Elmir Deodato - o último show que ele fez no Brasil ele me chamou para fazer com ele, ser o solista...

Aloizio Jordão - Que é o pioneiro...

Victor Biglione - Foi o primeiro a chegar e o último a sair...

Aloizio Jordão - Victor, agendas de shows...

Victor Biglione - Bom, tem o lançamento com o piano na rua, dia 04 de julho em Ipanema, na Vinícius de Moraes (entre Visconde de Pirajá e Barão da Torre), na Toca do Vinícius...

Aloizio Jordão - O Alô vai estar lá...

Victor Biglione - Queria falar da felicidade que é contar com vocês, com você e com a Solange, um trabalho que vem sendo feito da maior importância - não tem palavras para expressar o quanto é importante o apoio que vocês têm dado - é difícil, a quantidade de propostas sedutoras da grande mídia, gente com produtos mais pra vendáveis do que de qualidade que devem trazer para vocês, pedindo para fazer uma entrevista, oferecendo mordomias... Eu imagino que isso deva acontecer, mas vocês estão ali, firmes e fortes, há muito tempo com a mesma proposta...

Aloizio Jordão - É, o nosso compromisso é com a boa música... É o compromisso de engajar na luta pela qualidade de música no País - então, nós do Alô Música, estamos empenhados nisso, eu estou tendo o prazer de estar trabalhando e sendo sócio da Solange e me dedicar somente a essa parte instrumental... Está sendo o maior prazer estar te entrevistando, estar fazendo esse contato, porque eu como espectador já assisti várias apresentações do Victor Biglione e nunca tinha tido contato direto com você... Então tem essa recompensa, estar em contato direto com o artista e através do site poder usar essa ferramenta para poder mostrar essa insatisfação geral e de alguma maneira podermos contribuir para uma mudança no cenário da música... O Brasil tem músicos qualificados, de alto nível, e precisamos mostrar o que existe de bom no nosso País, porque o que existe de ruim muita gente conhece...

Victor Biglione - E o que existe de ruim é mostrado maciçamente pelos veículos de comunicação - porque não abre o Fantástico do dia 04 de julho, por exemplo, com a apresentação da gente em Ipanema? Abre o Fantástico com um piano e um violão na rua em Ipanema e uma multidão assistindo... Divulga o lado bom também..

Como disse Jimi Renrix: "WHY COLLARED PEOPLE WALKIN DOWN THE STREET, POINTING THE PLASTIC FINGER AT ME ? THEY HOPE THAT MY KIND WILL DROP AND DIE,BUT I'M GONNA PUT ON HIGH MY FREAK FLAG". Traduzindo: "POR QUE PESSOAS DE COLARINHO BRANCO ANDAM PELAS RUAS, APONTANDO SEUS DEDOS DE PLÁSTICO PARA MIM ? ELES ESPERAM QUE OS QUE SÃO DO MEU TIPO CAIAM E MORRAM, MAS EU VOU LEVANTAR BEM ALTO MINHA LOUCA BANDEIRA".

Aloizio Jordão - Então vamos torcer para que toda essa movimentação, em um curto espaço de tempo, possa dar um resultado... Na opinião do Aloizio Jordão, que sou ligado à música, gosto de pesquisar, acho que o momento é esse, não dá para deixar passar a carruagem...

Victor Biglione - Vou dar um recado por esse site maravilhoso que a Solange e você estão recebendo mais de 2000 visitas/dia, então vai o recado: "Alô, gente da música, vamos nos unir, independente se é "x" ou "y", se é música boa, está na hora, vamos trabalhar juntos... Nós temos talvez a coisa mais abençoada que é música... É mágico, ninguém consegue definir... Nós temos um dos maiores produtos do mundo...

Aloizio Jordão - É, só não vê quem não quer....

Victor, foi um prazer inenarrável estar aqui com você...

Victor Biglione - A minha casa está aberta para você e para a Solange, é muito bom contar com vocês e eu estou à disposição para o que der e vier...

Aloizio Jordão - Valeu, Victor - um grande abraço e tudo de bom...

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