Uma grande surpresa... Jucilene nos enviou "1984, uma leitura musical", uma "obra", não apenas um CD. Uma "obra", de verdade, simples e requintada, com todo mérito da música brasileira.
Comentar sobre seria impossível - gentilmente ela nos concedeu essa entrevista...
Solange Castro - Alô, Jucilene - em primeiro lugar, obrigada por nos ceder essa entrevista.... Você tem formação lírica - como começou sua ligação com a música?
Jucilene Bousi - Eu é que agradeço esta oportunidade de estar com vocês... Bem, cantar é uma coisa "de berço" pra mim... sempre cantei em casa, na escola, mas até os 23 anos isso tinha pra mim uma conotação de prazer, de festa e nunca imaginava tomar a música por profissão... Em 1994 tive um dos encontros mais lindos e significativos da minha vida... meu primeiro professor de canto, no Conservatório de Música de Pouso Alegre... comecei a fazer Conservatório pra ter o que fazer à noite, porque meu marido trabalhava demais a noite... Aí o André Lorieri (este era o nome dele), se encantou com minha voz, disse que eu tinha potencial... mas eu não me preocupei muito com isso em princípio... continuava minha vida como Administradora de Empresas e já tinha experiência de muitos anos na área. Um dia ele me perguntou se eu já havia assistido a algum espetáculo de ópera... Não, não tinha. Minha infância jundiaiense (sou de lá), não me permitiu tomar contato com essas coisas... Aí fomos pra SP assistir à minha primeira récita de ópera - era Orfeu, de Gluck e quem estava no papel do mezzo-soprano (Orfeu) era Regina Helena Mesquita - uma amiga muito querida hoje e o personagem Eurídice era interpretado por Rosana Lamosa... Aí não teve jeito! A ópera me pegou! Conclui meus estudos no Conservatório e comecei a procurar outros cursos de formação na área... Aos poucos a minha carreira como administradora foi se apagando, até sobrar só a cantora...
Solange Castro - E com quantos anos você começou a estudar canto?
Jucilene Bousi - 23 anos... Mas sou de família de músicos e meu contato com a música erudita era diário... Só existia pra mim Mozart, Bach, Bethoven ou o pior da FM da época...
Logo que terminei o conservatório me inscrevi num ópera studio em SP e fui contemplada no concurso que selecionou alguns principiantes... O curso acontecia numa dessas oficinas mantidas pelo Estado de São Paulo... Lá tive seis meses de contato com os melhores professores, maestros e entendidos no assunto... Foi bárbaro! Me descobri enquanto potencial, enquanto limitação, enquanto gente! Estive com Lenice Prioli, Adélia Issa, Marcelo Mechetti, Isabel Maresca, Niza Tank - nomes muito importantes no cenário lírico nacional... Logo depois veio o ingresso na faculdade também em São Paulo. Em 2000, ganhei um concurso pela Fundação Vitae de São Paulo e com ele uma bolsa de estudo para ser orientada por Neyde Thomas, em Curitiba - uma diva brasileira da ópera que fez carreira no exterior e hoje é uma das melhores professoras de canto lírico do Brasil... Aí, estudei muito, ganhei o refinamento da técnica do bell canto e comecei a dar aulas... Até 2002 fui orientada por Neyde Thoams e Rio Novello, em Curitiba. Depois daí conheci Francisco Campos, barítono, de São Paulo, com quem pude aprender mais um tanto de coisa... No ano passado, orientada por ele, tive uma das mais bárbaras experiências da minha vida (lírica)... Fui selecionada no Concurso Internacional Bidu Sayão, em Belém do Pará. Estive no meio de cantores muito preparados, muito talentosos do mundo todo e pude perceber que no nosso país temos cantores bárbaros, sem nenhuma (ou quase) expectativa de poder galgar uma carreira sólida no canto lírico. A maioria deles ganha a vida dando aulas e cantando em recitais aqui e acolá. São raríssimas as oportunidades de nos apresentarmos em óperas. Participei de óperas-concerto (sem encenação) no Palácio das Artes em Belo Horizonte - sempre perseguindo uma oportunidade pra pegar firme, fazer carreira... mas aos poucos fui percebendo que o mercado não existe "realmente"... Bem, paralelo ao estudo do canto lírico, nunca deixei de me envolver no canto popular... Como minha infância foi pautada pelo pior da FM, tive raríssimas oportunidades de conhecer bons cantores e compositores... Daí entrou a "mineirada"na minha vida... Através do Wolf (Borges) eu conheci os compositores e intérpretes mineiros e outros da MPB que me embeveceram... Fora anos de audição prazerosa, me emocionando com cada "Beijo Partido", que surgia pelo caminho... Então pintou também a divisão... Mozart ou Milton? Schumann ou Chico? Debussy ou Jobim? Oh, meu deus! Todos!!! Com o tempo fui estabelecendo paralelos entre a composição erudita e o melhor da música brasileira e percebi que o que divide nosso gosto entre popular e erudito é apenas o preconceito ou o desconhecimento de um ou outro... Ambos são sensacionais!!! Então sempre me dediquei à música popular com o mesmo denodo, respeito e critério que à música erudita!... Tenho com o Wolf um espetáculo que viaja por aí há mais de 10 anos que é justamente a mistura dos dois universos, mostrando que é possível dividir o mesmo palco e o gosto do ouvinte... É o espetáculo Paixão e Fé, com canções eruditas e populares, do Barroco ao Romantismo, de Jobim à música de raiz brasileira...
Solange Castro - Jucilene, fantástica história para quem começou a estudar aos 23 anos... Parabéns... Mas um detalhe: você disse que teve em casa uma 'ótima formação' erudita e "péssima" mpb através das rádios... Como foi isso?
Jucilene Bousi - Minhas duas irmãs eram estudantes de piano (hoje uma delas é excelente pianista e especialista em ensino musical) e meu irmão era estudante de violino (hoje especializado em Música Antiga, mora em Barcelona). Ambos e ainda minha irmã que não se especializou, mas também estudou muito, eram eruditos (e são) até o último fio de cabelo... "Eu queria ir tocar guitarra na TV" (empréstimo de Lulu Santos)... Meus pais não deixaram, é claro, eu tinha que ser como os outros, e ainda tinha a questão religiosa, que apontava para o mesmo caminho; estudo sério! erudição!... Sempre estive às voltas do estudo de teoria musical dividindo a "mesa do dever de casa" com os irmãos - tanto que isso nunca foi problema pra minha formação, como é para alguns. Acabei sendo vítima do preconceito que hoje combato com unhas e dentes: música erudita, jamais!!! Fui fazer outras coisas... a segunda opção de música era me trancar no quarto e ouvir FM - péssima programação!!! Era uma música horrorosa no quarto e Mozart se descabelando na sala!
Solange Castro - Rs... Imagino. Uma primeira pergunta: você é caçula?
Jucilene Bousi - Bingo! Das meninas... o meu irmão é mais novo... mas é do segundo casamento, quase um caso à parte (um caso muito querido à parte, diga-se de passagem) pois sua história foi um pouco diferente da nossa.
Solange Castro - Genial! Outra questão: fala das "rádios" de Minas...
Jucilene Bousi - Quando cheguei em Minas, mais precisamente em Pouso Alegre, no Sul de Minas, trazida quase à força pelo meu pai que queria sossego, as rádios daqui não eram lá essas coisas... Mas havia uma geração, da mesma idade que eu, ou talvez uns dez anos mais velha, que viu gente crescer e aparecer como Milton, Wagner (Tiso), Lô, todos do Clube e mais a Bossa... Foi esse povo que me "abriu a terceira visão musical"... Gente! Existia inteligência na música brasileira, comprometimento, seriedade, estudo... Caramba, eles eram quase tão eruditos quando Beethoven! Ou melhor, Minas está mais para Bach (barroco)... Então apesar da FM não ser lá grande coisa, o que se ouvia nos barzinhos, nas ruas, serenatas (ainda tinha serenata!) era o bálsamo da música brasileira bem composta... Foi uma descoberta sensacional!
Solange Castro - Sim - esse povo todo é herdeiro da Bossa Nova, que tem muito da música clássica, principalmente da escola de Jobim. A harmonia que ele e João Gilberto trouxeram fez muita diferença, acrescentou muito a esse talento nato do nosso povo...
Jucilene, seu primeiro disco é o 1984, certo?
Jucilene Bousi - Sim, o 1984 é o primeiro CD... Depois que eu passei pela "escola" da MPB, travei conhecimento com a potência da Leny (Andrade), com a densidade da Elis, com a criatividade e espontaneidade da Elza Soares e tantas outras (começar a citar é um problema: depois você não quer parar mais), eu fui adquirindo uma bagagem que foi moldando o meu jeito de cantar, a minha forma de sentir e expressar cada canção... Costumo dizer até que quando toco na noite (vez por outra) é um exercício sobre-humano, porque cada música pra mim é vestir e despir um personagem... Eu acabo a noite exausta! Aí cheguei naquela fase em que você precisa ter um "cartão de visitas" para apresentar... E esse cartão é o CD... Então passei, ou melhor, passamos, já contando com a ajuda do Wolf, a pensar no que seria este trabalho, este registro... Chegamos a vários modelos: regravação de sucessos, novos compositores, misturinha de ópera com mpb... Tudo soava genial, mas um corpo sem espírito. Então chegamos à conclusão que pra poder explorar todo esse conhecimento (ou mais precisamente dizendo: imensa vontade de ter conhecimento), sobre técnica vocal e corporal, o melhor seria gravar um musical, onde a voz pudesse estar em um plano diferenciado e as composições pudessem ser feitas pra mim, com a minha cara... O CD virou mais do que um cartão de visitas... O Wolf conseguiu "me traduzir" nas composições! Posso dizer que o "1984" é mais minha carteira de identidade que meu cartão de visitas... Bem, quando chegamos a conclusão que o modelo "musical" poderia nos servir melhor, passamos a pensar no tema: qual seria? Não pensamos nem dois minutos... O livro "1984", que pautou minha vida e a do Wolf de maneira muito especial, surgiu espontaneamente... Foi só uma questão de elencar os momentos e os sentimentos que deveriam ser "musicados". Trabalhei alguns meses nessa "garimpagem" de temas, e quando passei pro Wolf os temas eles já traduziam o nome das músicas... A composição veio intuitiva para o Wolf, suada, é verdade, mas ela espelhava demais os nossos sentimentos, o nosso momento... Daí eu tenho então que contar um pouco sobre a "abstração" que fez 1984 - um romance de fundo político-sociológico - pautar a vida de dois músicos em dois mil e tanto... O romance fala de uma sociedade monitorada por circuitos de tv, que geram e captam imagens dos cidadãos onde quer que ele esteja onde o poder central que controlava a vida das pessoas (a figura se chamava Grande Irmão - o Big Brother em nosso bom português), ao mesmo tempo que tolhia a liberdade e tornava a população alienada, dava-lhes a falsa impressão de que era o grande mantenedor, o grande salvador da pátria. É um "tratado" sobre alienação, ao mesmo tempo em que é uma crítica ao sistema de governo da época (Inglaterra, 1948). Mas as previsões do autor (George Orwell) não se materializaram em 1984... (sempre tenho muito medo desta afirmação, no fundo, não acredito muito nela). Fisicamente! Infelizmente, ideologicamente, o Grande Irmão está inserido em nossa sociedade, na nossa cultura, no nosso dia a dia, ditando o que comemos, o que vestimos, o que pensamos, quem são nossos ídolos, e o que ouvimos!!! O Grande Irmão nos obriga a ouvir músicas (músicas?) estúpidas e sem sentido nenhum (ou você se lembra da letra do último sucesso daquela cantora?... letra?! cantora?!), enquanto temos tantos Miltons, tantos Chicos, tantos Lenines, perdidos por aí que não se corromperam e continuam compondo canções lindíssimas, obras que vão ser ouvidas quando aquela mocinha (a cantora) nem for mais lembrada... Falo da música porque sou musicista. Mas o pintor falaria igualmente sobre o objeto de sua arte, assim como o poeta, romancista, etc, etc e muitas etcs.
"Abstração que fez 1984 - um romance...", aí? Abstração é o que você transfere de uma experiência alheia para a sua experiência de vida... deu pra entender? (ISSO ENTRA?)
Solange Castro - Sim para mim, que conheço o disco - agora melhor ouvi-lo, depois de compreender essa história... E, sim, compreendo porque também li o livro - faz todo sentido...
Jucilene Bousi - E a nossa revolta contra o nosso "Grande Irmão" contemporâneo nós transformamos em boa música contra tudo que dita que as pessoas só gostam do trivial, do básico, do alienante! Nós acreditamos na inteligência do ouvinte e queremos, com essa gota no oceano que é o nosso trabalho, alertar a nossa geração sobre o grande "buraco da memória musical" que se instala em nossas vidas...
Solange Castro - Ju, eu ia até comentar sobre o disco, uma obra belíssima, rara, digna de ser "brasileira" - mas depois desse teu depoimento, só deixando o link para quem quiser obter e se deliciar - www.wolfborges.com.br - certo? E só mais um detalhe, para nossos leitores entenderem: "Wolf Borges" é um grande compositor e músico, e é marido de Jucilene - rs... Ju, fala sobre as contribuições e participações no "1984"...
Jucilene Bousi - Ah, sim. Wolf Borges é o compositor deste trabalho – este “filho” a gente também gerou juntos... Quando as canções do 1984 ficaram prontas, Wolf tinha nas mãos um dilema e tanto... como alinhavar tantos estilos e tanta densidade sem correr o risco do CD virar uma colcha de retalhos? Bossa convivendo com tango, frevo ao lado de rock progressivo... o que fazer? Chamamos um músico aqui de nossa região que é um arranjador fantástico, o pianista Renato Kefi,e uma pessoa de uma cultura rara, e explicamos pra ele nossas intenções... ele abraçou o projeto na hora! Quando nos trouxe a primeira "prova" dos arranjos, além da certeza de termos colocado o trabalho nas mãos certas, sentimos um grande impacto sobre a qualidade do que tínhamos nas mãos... Ele conseguiu fundir as diversas personalidades envolvidas no trabalho (inclusive a dele) e criar arranjos fantásticos... E de uma forma geral, todos os músicos que vieram depois: o produtor Cezar Botinha (de São Carlos, onde gravamos), os músicos, o quarteto de cordas, abraçaram o trabalho de uma maneira muito especial... Não sei se acontece em todos os CDs, ou se eu é que estou deslumbrada com o "primeiro trabalho", mas eu senti que todos se esmeraram pra dar sua contribuição... E sou muito grata a todos por isso... Quando as bases estavam prontas começamos a pensar em chamar algumas participações... Mas não poderiam ser muitas, porque tínhamos comprometimento com o cronograma do trabalho e tudo mais...
Sérgio Santos tinha acabado de ir conosco em um show no Santuário do Caraça (uma reserva ecológica "abençoada" que temos em Minas)... E nossa empatia foi imediata... Ficamos muito amigos e a participação dele foi sublime na faixa "Diário", momento do musical/livro em que o protagonista arruma uma forma de manter sua "sanidade emocional" escrevendo suas impressões e críticas em um diário... Parece que sentamos juntos e escrevemos um diário e não cantamos uma música... Quando o tango criou forma, com aquelas cordas incríveis, me veio na memória uma "lenda" da minha infância... Uma artista genial que imitávamos em casa e que povoou nosso imaginário: eu queria nada mais nada menos que a participação da Maria Alcina no tango (O Grande Irmão)... Despejei este abacaxi pro Wolf descascar... Ele foi incansável na busca da Maria Alcina... Acessou internet, entrou em contato com o empresário, mandou material, mas cuidamos de manter nossas expectativas baixas porque afinal, ela poderia não gostar do trabalho, ou até pedir uma grana que não tínhamos pra oferecer pela maravilhosa participação... Enfim, nos surpreendemos com uma pronta e rápida resposta da Alcina: ela topou, se emocionou, amou o trabalho, teceu elogios mil... Quando fui pra SP pra gravarmos esperava encontrar aquela Alcina da TV, com balangandãs e tudo mais (quem sabe careca, quem sabe sem sobrancelhas?)... Deparei-me com uma Alcina totalmente sem maquiagem, em moletom de caminhada... Mas era ela toda em astral, simpatia e muita, muita bondade... Achei (que pretensão) que eu tinha entendido bem o tango e interpretado de uma forma bastante dramática, teatral... Daí levei um banho de interpretação da Alcina, que além de tudo gravou chorando!!! Chorando de emoção!... Ela é gente como a gente além de ter sido minha musa infantil... Foi um encontro mágico, pode acreditar... E ainda um dia antes sabe quem tinha gravado no mesmo estúdio... Ninguém mais, ninguém menos que Cauby Peixoto e ainda a maravilhosa "Ne me quitte pas" em um cd em homenagem à deusa Maysa! Aquele dia foi de enlouquecer!!! A energia do cara ainda estava lá no estúdio quando entramos!!! Foi tudo lindo!!! Quando o CD chegou e começamos a trabalhar na divulgação dele tivemos duas gratas surpresas: na primeira semana de “nascimento” dele fomos convidados pelo Maestro Jean Reis, que coordena o Festival Internacional de Música Nas Montanhas, em Poços de Caldas, convidou-nos pra fazer o lançamento do Cd durante o Festival (em janeiro) com a participação da Orquestra do Festival (que neste ano tinha mais de cem músicos!). Foi muito bom e sentimos que este convite nasceu do impacto do trabalho nas pessoas (neste caso no Maestro). Enquanto estávamos em Poços trabalhando com a orquestra recebemos um e-mail de uma importante rádio americana Radioio Jazz (Carolina do Norte) nos parabenizando pelo trabalho e dizendo que faixas do CD haviam entrado na programação. Fomos às alturas! Mas mesmo assim, continuamos naquele trabalho de “vendedores da Avon”, como diz Wolf, levando o CD de mão em mão, fazendo nós mesmos o trabalho árduo de divulgação e venda. Se falo com tanta empolgação deste meu "filho", é porque ele foi muito esperado e foi gerado em circunstâncias especiais... Não sei se todos os CDs são... O meu foi!
Solange Castro - Filho...
Realmente uma obra belíssima, que recomendo principalmente aos colecionadores e pesquisadores da nossa música... Mas gostaria de falar sobre WolFilho - rs... Esse filhote, o que terá da música brasileira? O que você acha do movimento musical brasileiro nos dias de hoje, sua divulgação, "rádios", enfim...
Jucilene Bousi- Pois é... Complicado, né? Acho que o Wolf (pai) foi meu "padrinho" musical, ao me ajudar a conhecer tantos músicos bons - ele diz que a escola dele é a audição, e me aplicou isto tim-tim-por-tim-tim... Quanto à formação musical-auditiva do Wolfinho, acho que vou depositar isso nas mãos dele de novo... rs. Outro dia estava louca depois de três dias trancada em casa com o menino... Virei pra ele: vamos filho, vamos à locadora da esquina que eu vou alugar o DVD da X (aquela mesmo) pra você.. .Ele me disse: "não mãe, quero do Milton e do 'Djaban'..." Acho que já está funcionando... rs...
Esse meu trabalho, assim como o show "Paixão e Fé" que eu já citei, é ao mesmo tempo em que um protesto contra a falta de sensibilidade dos grandes manipuladores (podemos chamar de mídia, eu acho...), um manifesto à crença de que dias melhores virão...
Vou contar rapidinho uma história pra ilustrar isso: Há alguns anos (eu ainda era aluna do meu querido André) fomos convidados pra tocar na inauguração de uma fábrica numa cidade minúscula aqui no Sul de Minas (Campanha). A encomenda era de um recital clássico, com acompanhamento de orquestra de câmara... Lá fomos nós... Quando chegamos me deparei com o seguinte cenário: um cinema antigo todo "arrumado" pra ocasião, e mais de duas mil pessoas portando chapéus e botas 3/4... Comecei a rezar... Não tinha outra coisa melhor pra se fazer... O que eu ia fazer com uma platéia daquelas (hoje penso: o que o preconceito não faz com a gente, né?)?! Mas vamos lá, o show não pode parar... Comecei a primeira ária antiga (século XVII, minha gente)... A platéia ruidosa, andando, conversando, foi se aquietando, aquietando, abrindo a boca e, permaneceu sem piscar até o último número, desabando em estrondosos aplausos no final da história... Que inauguração de fábrica, que nada!!! Eles queriam saber "o que era aquilo". Resumindo: se você oferecer boa música, não subestimar a capacidade do ouvinte, a coisa flui... Velhinhas nos agradecendo: "agora posso morrer porque conheci dois cantores líricos”... "peões" acrescentando: "pensei que isso não existisse, que fosse truque de televisão"... Platão e a alegoria da caverna foram revisitados naquela noite de forma brilhante... E deveria ser revisitados todos os dias pelo bem da nossa saúde mental... Acho que vivemos a alegoria da caverna com os auspícios do poder público e para o deleite da mídia... Mas pra isso mudar o trabalho vai ter que ser de formiguinha... Porque parece que os elefantes não estão muito preocupados com isso... Assisti a poucos dias no telejornal a culminância da violência no Rio de Janeiro com todos os nossos sonhos infantis sendo arrastados junto com o João Hélio, enquanto os parlamentares aumentavam vergonhosamente seus próprios salários e nossos juízes faziam birra pra ganhar "um pouquinho mais"... Acho que a cultura está longe de entrar na pauta... Daí acredito que nosso trabalho de formiguinha ainda faça diferença... Um pouco de sensibilidade nesta "coisificação" toda...
Solange Castro - Concordo plenamente contigo, choro por isso tudo, e mais ainda por termos um "Ministro" que não se mexe para proporcionar (simplesmente 'oferecer') ao nosso Povo nossa Arte maior... Gil poderia fazer mais, não tenho dúvidas... Mas...
Jucilene Bousi - O nosso representante na esplanada dos ministérios tem que voltar logo pro reduto... As composições dele removem muito mais montanhas por aqui... Vem fazer planaltos pra nós, Gil... Mas voltando ao 1984, falta ainda eu dizer pra vocês que o projeto na íntegra é grandioso, conta com um maravilhoso trabalho de coreografia (com quatro bailarinos), roteiro, cenários, guarda-roupas e já está aprovado pelas leis de incentivo Estadual (de MG) e Federal (Rouanet)... Trabalhamos arduamente na captação destes incentivos... Procuramos diversas empresas, contamos com a sensibilidade de muita gente, mas sonhamos (e batalhamos) pelo dia em que o valor artístico-cultural dos projetos abra mais portas do que o seu valor mercadológico... (mas este já é um outro assunto...) Visitem nosso site: www.wolfborges.com.br - ouçam as canções, dividam conosco suas impressões e... comprem, claro... rs... Temos um sistema bastante eficiente de entregas para qualquer lugar. Obrigada, Alô Música!
Copyright © 2001-2009 Alô Música
Todos os direitos reservados
publicado por HTDocs