Entrevista exclusiva de Joyce e Dori Caimmi, concedida ao Alô Música no Show RIO - BAHIA.
Perguntado sobre o atual cenário da MPB no Brasil, Dori diz que tem sorte de fazer parte de uma geração de músicos que, independente da questão do dinheiro e da fama, não se deixaram levar, e que seguraram firmemente seus ideais em relação à música.
Disse também ter a vantagem de ter em sua geração pessoas como: Edu Lobo, Chico Buarque, Toninho Horta, Joyce, Francis Hime e tantos outros.
Sobre o que Dori Caymmi achava de estar se apresentando no Teatro Rival, ele respondeu:
- Não sei, estou estreando aqui, acho ótimo, não sabia que a gente tinha tanto artista assim no Brasil, tem fotografia de todo mundo (referindo-se às fotos nas paredes do Teatro). Eu passava sempre por aqui, eu estudava nessa rua, era aluno do professor Paulo Silva, trabalhei na CBC (Companhia Brasileira de Discos), então é uma região que eu conheço muito bem, mas, no Teatro Rival, eu nunca tinha entrado. Acho que esse espaço é primordial.
Perguntei a Dori Caymmi o que ele achava do jabá e desse hiato da MPB nos últimos 20 anos. Dori disse que já denunciou inclusive empresários que deram golpe até no seu pai. Esse troço é inevitável, o americano chama isso de business. Você entra nessa área do business, entra o safado junto, vira uma indústria e você vira pasta de dente.
Dori disse também que existem os artistas que se deixam levar pela força do dinheiro, mas que não podia fazer nada. Eles acreditam estar fazendo a coisa certa. Afinal, é a geração deles (diz Dori).
Manteve seu posicionamento em relação ao tropicalismo e disse que nunca foi fã por achar que não passou de uma armação comercial, e que embora respeite a todos do movimento tropicalista, mantém sua opinião.
Disse também que vem denunciando tudo isso há tempos, que não tem medo de falar, que não cedeu a nenhuma pressão, faz o que gosta de fazer e que o jabá tinha que acontecer. Estava escrito e vai piorar.
Dori diz que não é chegado a cantar e que cantar é pra cantor, ele gosta mesmo é de arranjar, segurar a banda e que não é muito chegado a apresentações públicas. Que em alguns momentos, dependendo do público, fica bom. Disse ter muito cantor na família, seu pai, Nana e Danilo Caymmi e que ficou mesmo como arranjador.
Dori, agora vamos falar do Disco.
Dori Caymmi - O disco é bom, pra mim representa muito porque é uma chance de juntar dois músicos da mesma geração, embora eu seja um pouco mais velho que a Joyce.
Estamos fazendo música por paixão, gosto de coisas assim. Eu não faço música pra ninguém, nunca fiz. Tenho uma encomenda ou outra pra novela, "Gabriela", fiz música com letra do Jorge Amado, eu fiz o "Porto", que vou tocar no show, que é um clima assim de porto de mar, de jangada. É uma visão geográfica do Brasil, também pra mim muito importante e o disco tem isso. Eu sou carioca, nasci na região do Andaraí, na rua Leopoldo, numa casa de fazenda. Não que a fazenda fosse do meu pai, mas eu nasci ali nessa situação, e esse disco traz umas coisas boas de volta.
Foi bom a Joyce convidar. Eu vim de vários discos importantes pra mim na minha carreira.
Fui para os Estados Unidos, e gravei o "Brazilian Serenata", que é um disco que algumas pessoas entenderam e outras não. Cheguei nos Estados Unidos e vi o Brasil de fora e isso me deu tristeza. A minha visão ficou muito diferente, muito amarga (aí o Brazilian Serenata).
Levei o Paulo César Pinheiro e fizemos algumas letras e trabalhamos no "Brazilian Serenata".
Fiz o "Kicking Cans", em que eu tive uma visão mais jazzística, chamei o Herbie Hancock, o Dave Grusin, que tem uns amigos e tudo, aliás, chamei uma ova, paguei, não são meus amigos, os meus amigos na verdade moram no Brasil. E então fizemos esse disco.
O terceiro foi mais ou menos, tem uma coisas ou outra que eu gosto, mas já não representa a mesma coisa. Depois eu fiz um japonês, mas aí foi um disco que a minha mulher bolou, que foi a única encomenda da minha vida, que foi um disco de cinema. Aí eu peguei aquelas coisas todas que eu gostava e ela disse: - Isso é tão bonito, vamos gravar... E fiz um tributo a Johnny Mandel que é meu herói número um na orquestra que acompanha cantores. O outro é o Bill Evans que é o da orquestra sozinho, então fiz um tributo. Depois recebi um convite para cantar, eu fui e conheci o Robert Altman e os caras que participaram da vida dele. Ai o japonês viu e ficou interessado .
Depois disso fiz um que eu queria fazer: Influências. E fiz o Contemporâneos, foram meus dois últimos projetos. E aí tem a ver mesmo, direto, com o "Brazilian Serenata", em que eu diversifiquei um pouco musicalmente. Então me reaproximei mais do Brasil, com mais violência, no Influências e no Contemporâneos. E dali pra cá foi assim. "Caimmy 90 anos", "Homenagem ao Tom", mas tudo assim, meio rapidão.
E aí veio esse convite da Joyce e foi bom porque eu só gosto de projetos. Eu só gosto de eu imaginar um motivo para fazer um trabalho.
Dori explicou que não gosta de gravar por gravar, ou gravar para cantar, ele não gosta muito da coisa do cantar, de ser o cantor. Dori elogia cantores como: Frank Sinatra, Nat King Cole, Dick Farney e Lúcio Alves, mas que, quanto ao fato de se achar um cantor, está totalmente fora de cogitação (o que eu pessoalmente não concordo, ele canta e canta muitoooo).
Na minha entrevista com a Joyce, perguntei o que ela acha em relação aos espaços para os músicos de uma maneira geral, que estão cada vez menores, sobre o jabá nas rádios e o que mudou desde aquele festival da MPB de que ela havia participado.
Joyce - A maior questão é isso mesmo que você falou. É a questão do jabá, é questão de corrupção. A corrupção nesse país é uma pandemia, é um negócio muito sério. Então a gente vê isso acontecer em todos os níveis, no nível do governo, no nível mais alto do governo, do país, você vê isso, quanto mais nessa questão de mídia. É uma coisa muito grave e o jabá é isso, o jabá é corrupção. É corrupção explícita. Agora, é um negócio grave porque você aí tira o direito democrático das pessoas ouvirem, terem acesso a alguma coisa. Como se você dissesse assim: daqui pra frente, o povo brasileiro só vai poder comer chocolate. Aí vai ficar um país de obesos, frágeis, com saúde péssima.
Joyce, temos um Ministro da Cultura que é músico, que já passou por tudo isto, e eu não vejo por parte dele nenhum esforço em relação a isso, não consigo perceber nenhum comentário mais veemente na classe artística .
Joyce - O que acontece é o seguinte: muitas das melhores pessoas que poderiam estar tentando alguma coisa com relação a isso são pessoas que, de certa forma, se beneficiam também com esse negócio. Eu não posso falar com uma pessoa que está fazendo sucesso na mídia, que é popular e tal. Mas esse é o formato que predomina. Então se você busca um outro tipo de coisa, fica muito difícil. Você vê que até o Chico Buarque agora está gravando na Biscoito Fino, que é um selo pequeno, que não tem essa condição toda. Tá ele, a Maria Bethânia e muitos outros. Por que, por que será? Tem todas essas questões.
Joyce, me fale do disco.
Joyce - Cada um acha sua maneira de lidar com essa situação, com essa questão que você tá falando, não é, da falta de acesso. No meu caso e no caso de outros artistas tem sido o exterior.
A gente consegue gravar fora do Brasil, o disco vem por encomenda. O Dori tá mais ou menos no mesmo caso que eu. São discos onde a gente não assina contrato de longo prazo e, na verdade, o que acontece é que eu vou gravando e sempre consigo, de uma forma ou de outra, que o disco depois de um ano, um ano e meio lançado lá fora, possa ser lançado aqui no Brasil. Eu tenho feito isso já há alguns anos; desde 2000 que eu venho fazendo esse tipo de coisa, quer dizer, na verdade até desde antes. Mas antes o disco saía numa gravadora maior, aí saia aqui pelo Departamento Internacional, que também não é muito legal. É legal quando você consegue que ele saia ainda com selo, que ele saia de uma maneira honesta, legal, e que faça-se um bom trabalho a respeito disso.
Também acho Joyce. É uma pena porque o mercado interno poderia estar absorvendo isso, essa necessidade do artista, não é mesmo?
Joyce - Olha isso eu não tenho a menor dúvida. Isso é igual à história do cupuaçu. O gringo vem aqui e patenteia o cupuaçu. Depois vai vender cupuaçu pra gente. É mais ou menos o que tem acontecido com a música brasileira. Muitos de nós conseguimos trabalhar lá fora e aqui às vezes o cara chega pra mim e fala - Pô, paguei (sei lá) 60, 70 reais num disco seu. E eu não posso falar nada porque o disco saiu lá fora mesmo, o cara queria logo ter e aí comprou. Isso acontece com freqüência, a gente fica morrendo de pena. Eu fico com o coração apertado de ver isso. Mas, de novo, é o cupuaçu. Enquanto não houver um interesse do Brasil, nas pessoas que podem resolver isso, não vai acontecer nada.
Joyce, me fala desse convite aí com o Dori.
Joyce - Esse convite é uma velha amizade, a gente se gosta muito, nós pensamos assim, parecido, com relação a muitas coisas. É, o Dori falou também que não gosta de cantar, eu sei que não é verdade. Ele gosta sim. Mas é que eu acho que ele tem a mesma visão que eu com relação a essa coisa de cantar. Eu não me sinto uma cantora, eu não me sinto fazendo parte do universo das cantoras, eu acho que eu sou músico e que a voz, o violão, até a composição, tudo isso são ferramentas que eu tenho para poder expressar o meu pensamento musical, ou seja, o meu pensamento de músico e aí essas coisas todas são as ferramentas que eu tenho pra poder expressar isso. Eu acho que no caso do Dori ele tem essa mesma idéia, sendo que ele é um arranjador, escreve pra grande orquestra e tal. É um passo bem acima, um upgrade, né? De qualquer forma, a gente pensa parecido com relação a isso, e isso é uma coisa que nos aproximou e nos aproxima. O gosto que a gente tem pela harmonia, o prazer que a gente tem de fazer acordes e harmonizar canções, de pegar uma música que tá mais do que manjada e mais do ouvida, e batida e mastigada e de repente dar um trato nela, fazer ela soar diferente. Essas coisas são divertidas, é bom, é um prazer.
E quando é que a Joyce vai convidar outros amigos para cantar? Adoro aquele disco que você fez com participação da Fátima Guedes, do Chico, do Emilio Santiago e muitos outros. O "Revendo Amigos".
Joyce - Olha, eu gosto de trabalhar em conjunto, gosto de dividir, acho melhor, dividindo você multiplica e eu fiz vários discos assim. Teve o "Bossa Duets" que saiu também em 2003. Tem vários convidados. Todo ano eu tenho um convidado para minha turnê no Japão. Esse ano vai o Roberto Menescal, o ano passado foi o Dori, já foram várias pessoas, Carlos Lira Johnny Alf, João Donato, todas essas pessoas já estiveram lá comigo. Tem um disco meu que nunca saiu no Brasil, feito com o Toninho Horta, um disco chamado "Sem Você" , que a gente só canta, só faz coisas do Tom Jobim , é voz e violão. A gente gravou em uma noite, esse disco nunca saiu aqui. Mas enfim, essa coisa de dividir eu gosto muito. É o meu grande barato. Tem um show agora que a gente começou a fazer também, antes de começar a temporada com Dori, eu fiz em São Paulo e fiz aqui no Rio também , com Zé Renato, um show de voz e violão só, a gente cantando várias coisas assim que a gente curte e tal, essas coisas assim eu sempre gosto de fazer.
Joyce e Dori, o Alô Música agradece a entrevista, esperamos que tenham muito sucesso com o show.
Obrigado.
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