Bianca Gismonti e Claudia Castelo Branco, formam o GisBranco. Duas virtuoses do piano a serviço do melhor da música, numa parceria que dá nome ao primeiro CD do duo e marca a estréia das pianistas no selo Delira Música.
Premiadas pelo Instituto Itaú Cultural no Projeto Rumos Música deste ano, as moças integram a nova geração de músicos que renovam o cenário musical brasileiro com criatividade e bom gosto.
Brincadeira de meninas, meditação a quatro mãos, como definir a relação entre essas duas instrumentistas, na fronteira entre o popular e o erudito?
Apoiadas numa sólida formação musical e apuro técnico, marcadas por uma trajetória repleta de afinidades – as duas estudaram juntas na mesma escola de música e fizeram parte do grupo OFELEX, voltado para a composição e a interpretação de música eletroacústica – a parceria dessas jovens é de tal maneira orgânica e fluida que fica difícil explicar apenas com palavras.
Uma simbiose musical não daria conta de nomear a relação entre essas artistas que tocam instrumentos idênticos - são 176 notas dos dois pianos – com o propósito de reinterpretar o melhor da música popular. Isso, porque apesar da formação erudita, o que GisBranco faz é música popular orquestrada para piano, “popular pianística”, como define Bianca; porque trabalha com a obra dos melhores compositores da nossa tradição; de Villa-Lobos a Ernesto Nazareth; passando por Edu Lobo, Astor Piazzolla e Egberto Gismonti.
No entanto, se nos seus pianos, elas se misturam de tal maneira a ponto do ouvinte não distinguir onde começa uma e termina a outra, é na concepção dos arranjos e na escolha do repertório do disco que podemos perceber a diferença entre as duas. Ao observarmos o modo como foram tratados os temas, ora compostos por elas, ora por compositores do calibre de Guinga, Jobim e Ernesto Nazareth; é que podemos encontrar o lugar de Bianca, e o de Claudia, assim como a função de GisBranco, esse outro corpo musical criado por elas.
Bianca por exemplo, vai buscar no Almodóvar de Fale com Ela e na gravação de Elis e Tom, a inspiração para recriar Por Toda a Minha Vida, clássico do maestro, com letra de Vinicius; dando ares eruditos, pra não dizer, “chopinianos” à canção de Jobim. Também não se intimida, diante do peso da herança do nome que carrega, ao ousar escolher uma canção de Guinga, o mais cultuado dos compositores contemporâneos, dando colorido à bela, Choro pro Zé.
Já Claudia viaja no Moacir Santos de Nanã – Coisa n.5 e no Curumim de César Camargo Mariano, mostrando toda a sua versatilidade, experiência adquirida junto ao grupo PianOrquestra.
Mas é em Aquelas Coisas Todas, de Toninho Horta, Abertura, de Délia Fischer, Brejeiro, de Ernesto Nazareth e a Fala da Paixão, de Egberto Gismonti, que o Duo arrisca de verdade; quando se propõe a criar os arranjos conjuntamente: invocar, ordenar e consolidar milhares de idéias utilizando o mesmo tipo de instrumento não é trabalho pra qualquer um, ainda mais em se tratando de um instrumento tão completo como o piano; é como fazer duas orquestras inteiras soarem com apenas quatro mãos.
Não há muitas experiências de duos como esse na história da música popular. César Camargo Mariano e Wagner Tiso fizeram algo parecido há alguns anos atrás usando teclados eletrônicos. As experiências de Délia Fischer e Cláudio Dauelsberg, Herbie Hancock e Chick Corea, talvez possam também ser lembradas como exemplos de instrumentistas que trabalharam com esse formato; mas esse costuma ser um modo de trabalhar mais comum a duos eruditos.
E por que essas meninas escolheram o caminho mais complicado? Por puro acaso, segundo elas. Porque na escola aonde estudavam havia uma sala com dois pianos, um virado para o outro; e ali elas podiam se encontrar pra estudar, sem que ninguém incomodasse. Mas por que, então, não tocar a quatro mãos e no mesmo piano? Porque isso implicaria em dividir o piano ao meio, e aí, não seriam mais duas partes inteiras a serviço de uma terceira parte, também completa em si.
Talvez esteja aí, a chave pra entender o funcionamento do Duo. Mas para isso, é melhor não falar e sim escutar GisBranco, a 12° faixa do CD, de autoria de Bianca. Nela nos remetemos a um emaranhado de sons, que a principio nos dão à impressão de enguiço, disco arranhado; algo que não encontra um lugar. Mas é exatamente aí que nos deparamos com a música de GisBranco; naquilo que nos escapa; como uma brincadeira de criança.
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