Chico Buarque de Hollanda - "Carioca"
Carioca (Biscoito Fino, 2006)
Livraria "Letras & Expressões", Leblon, Maio de 2006:
Dirigida a um funcionário da loja, a pergunta que há dias não queria calar:
- "Já chegou o disco novo do Chico?"
Não percebo a ironia da resposta provocadora:
- "Já chegou e já acabou".
Diante do meu olhar decepcionado, o rapaz abre um sorriso e desfaz a brincadeira:
- "Você quer só o CD ou o CD+DVD?".
Devolvo o sorriso:
- "Quero tudo!!"
Volto pra casa e dou início àquela que seria a primeira das inúmeras audições que tenho feito de "Carioca", desde que o disco caiu em minhas mãos. Belíssimo e refinado trabalho do autor de expressiva parte da trilha sonora da minha vida, sempre traduzindo em seus versos meus próprios sentimentos, emoções e ideais.
Estou de volta ao prazer de ouvir de novo a voz inconfundível de Chico Buarque, deitando e rolando sobre a cama construída por alguns de nossos maiores instrumentistas e os arranjos fantásticos de Luiz Cláudio Ramos!
Agora é o momento de acompanhar o olhar do compositor sobre aquela parte da cidade que "...desbanca a outra, a tal que abusa de ser tão maravilhosa" ('Subúrbio'). Reconhecer o grande melodista que é o nosso celebrado letrista, já aos primeiros acordes de "Outros sonhos", seus sonhos impossíveis ("De mão em mão, o ladrão relógios distribuía...") Ouvir sua interpretação de 'Ode aos ratos', da trilha sonora que compôs com Edu Lobo para o musical "Cambaio", com direito a embolada e super arranjo de Luiz Cláudio Ramos. Estou no Rio: são "mil buzinas", e lá está a sambista, que 'imagina orquestras' e "samba no chafariz", novamente desatinando na swingada "Dura na queda". Sonho ser Beatriz, Carolina, Rita ou Januária, para ouvir o amante dizer: "Me vendo nos olhos dela sei que o que tinha de ser se deu" em "Porque era ela, porque era eu". E vejo a mulher ser descoberta pelo menino nas telas em "As atrizes" ("Os meus olhos infantis só cuidavam delas, corpos errantes, peitinhos assaz, bundinhas assim"), envolvida pelo arranjo que me remete às trilhas dos clássicos filmes americanos. E se a atriz está na vida real, chego a compartilhar da dúvida de seu amante: "Quando ela chora, não sei se é dos olhos para fora" - em "Ela faz cinema"("ela faz cinema, ela é a tal"). Em "Bolero blues", sou envolvida pelos inesperados e sofisticados caminhos da melodia de Jorge Helder, colados ao oculto apelo do poeta à sua musa: "Se ela olhar para trás, é bem capaz de num lamento acudir ao meu olhar mendigo". Muito prazer, "Renata Maria", você que é mais uma deslumbrante personagem feminina da lírica de Chico, em sua primeira parceria com Ivan Lins: "Ela, era ela, era ela no centro da tela daquela manhã. Tudo o que não era ela se desvaneceu". E me delicio com a linda melodia de "Leve", de Carlinhos Vergueiro, solidária à musa de mais uma história de amor que chega ao fim: "Pense como eu vim de leve, machuquei você de leve e me retirei com pés de lã". E o disco também vai chegando ao fim, com mais uma belíssima surpresa: "Sempre" - "O teu corpo em movimento, os teus lábios em flagrante, o teu riso e teu silêncio serão meus ainda e sempre". E minha viagem termina com a emocionante parceria com Tom Jobim, "Imagina", em dueto com Monica Salmaso. Bravo!!
O DVD
Imagens de estúdio mostram um Chico à vontade, trabalhando, divertindo-se e divertindo seus pares, ao longo das sessões de gravação. Uma delícia poder compartilhar com ele esse momento. E ver reveladas, na prática, suas "palmas para todos os instrumentistas", ao trazer o grande baixista Jorge Helder para o rol de seus (poucos) parceiros.
Arrasou, Chico Buarque!!!
Heloisa Tapajós
Instituto Cultural Cravo Albin
Maio de 2006
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